domingo, 14 de agosto de 2011

Ainda Sobre o Inglês

Vocês sabem que gosto muito de conversar, não é? Agora pensem na minha situação vivendo 12 anos em Canberra sem poder conversar.

Okay, eu tinha Skype e cartões de telefone para ligar para o Brasil, mas nunca é a mesma coisa por uma série de restrições. Primeiro, vivemos do outro lado do mundo, e isso quer dizer 13 horas de diferença, ou seja, enquanto estamos de dia, bulindo, o pessoal no Brasil está no maior ronco. Isso restringe nosso horário de conversa para cerca de 4 horas, das 9 da manhã, que eu não sou coruja pra acordar cedo, até às 12 da manhã, o que corresponde às 11 da noite no Brasil.

Some-se a isso que eu conheço uma pá de gente e nossa família é bem grande. São cerca de 40 pessoas para manter contato, então, ligar para elas todo dia não dá.

No início, ligar para o Brasil saía bem caro. Com o tempo apareceram estes cartões chineses de telefone, mas eles tem sido uma dor-de-cabeça porque, por vezes eles comem meu dinheiro sem permitir as horas que contratei para falar com o Brasil. Ainda por cima, ligar para o Brasil, especificamente para o nordeste, era mais caro do que ligar para o resto do mundo. 


Engraçado, hoje é mais barato ligar pra o exterior do que daqui de Sydney pra Canberra!

Também tive problemas para acertar no cartão que roubava menos, além de ter perdido meu tempo reclamando. Foram tantas reclamações que desisti, aceitei o roubo mesmo. Valha dizer que todos estes cartões de telefone são invenção dos chineses…

Daí surgiu o Skype. Não dava pra usar MSN como meu marido usava a princípio, porque muitas das pessoas que conheço n
ão tem computador, ou usa ele regularmente. Muito pior foi pensar que poderíamos usar câmeras para matar as saudades das pessoas. As câmeras congelavam e tinham uma imagem feia, e ainda têm. Esta tecnologia não tem evoluido muito bem.

Para entrar no Skype, demorei um bocado. Ainda tentamos outra empresa que não deu certo. O Skype custa  mais caro para ligar para o Brasil, mas hoje em dia estou usando tanto quanto os cartões chineses, porque roubo por roubo, acaba dando na mesma coisa. O Skype tem lá seus problemas de conexão também. Enfim, é preciso ser muito paciente para conseguir conversar regularmente com nossos amigos no Brasil.

Emails não funcionam muito bem, só para meu marido que escreve emails quilométricos, mas para mim, quase ninguém lê os emails também regularmente, e depois tem muita gente que paga pra não ter que escrever, é uma tortura que não tenho o direito de exigir deles.

Com o Skype posso ligar para o telefone da casa de alguém. Se a pessoa tem computador e está ligada no mesmo momento que eu, podemos conversar de graça, mas isso é quase impossível. Somente com raras pessoas eu posso fazer isso. O jeito foi manter o sistema de cartas por muito tempo, e ainda uso este meio. Ultimamente eu soube que os postos do correio andam reclamando que ninguém usa mais cartas, e o trabalho deles aumentou muito porque agora todo mundo usa pacotes de compras online. Sinal dos tempos. Eles tem muito mais trabalho e tem que ter muito mais espaço, e isso não estava no contrato inicial dos franchising de correios.

Outro grande problema da Austrália, tão sério que está saindo na TV nestas últimas semanas, s
ão as pessoas reclamando finalmente de que não existem empregados para atenderem nas lojas, e muito menos gerentes à vista. Nunca vimos um gerente, é a coisa mais difícil do mundo, incluindo as grandes lojas e supermercados.

A teoria é muito bonita, mas a prática, vocês sabem, pessoas humanas serão sempre pessoas humanas, e não robôs. Na teoria, os funcionariozinhos são considerados responsáveis e adultos maduros, capazes de lidar com todas as situações e resolverem qualquer parada. Não é bem assim que acontece. Fica muito cômodo para quem emprega jogar a responsabilidade pra cima dos funcionários e exigir deles. O que me intriga é o número de maus atendentes que comprometem os negócios por aqui. Parece que os negociantes não estão nem aí para os clientes, que estes se explodam, como se eles sobrevivessem sem nós. E isso na pátria do capitalismo.

Isso tem um fundo de verdade. Esta é uma sociedade talvez das maiores consumistas do mundo, pois a Austrália é conhecida por produzir mais lixo entre o mundo desenvolvido. Isso quer dizer que, com atendente ou sem atendente, o povo compra do mesmo jeito, e compra muito. Compra tanto que todo mundo tem toneladas de lixo abarrotando as garagens, as quais eles limpam anualmente, levando toda a tralha pra jogar no depósito ou promovendo uma “garage sale” (venda de garagem), coisa muito divulgada por aqui (e nos USA) onde as pessoas espalham a tralha acumulada no “drive way” (saída da garagem), etiquetam tudo com preços mínimos, e ficam lá naquele programa de índio, recebendo pessoas o dia inteiro pra vender o máximo que podem, e até darem de graça, porque o que não consegue ir embora vai custar dinheiro pra ser levado pra o depósito de lixo, que cobra por tipo de peça, além de ter-se que alugar um reboque pra puxar com o carro que geralmente tem puxador por aqui para estas coisas, sem falar no tempo que está se perdendo ao invés de ficar assistindo aos DVDs deles.

Então é assim, as lojas podem enxotar os clientes, chamar eles de babacas, abrir as bolsas deles, que eles não se ofendem, não deixam de comprar, e estão lá, com os cartões de crédito na mão, brandindo, dizendo na porta, me deixa entrar, me deixa entrar, senão eu me suicido. Nos dias de promoção anunciados pela televisão então, o povo encosta cedinho e leva tudo o que pode e que não pode, parece urubu na carniça.

Não é preciso dizer como é fácil roubar nas lojas, e o quanto isso é comum na Austrália. É tão comum que certas lojas mantém alguém na porta para fusquilar a sua bolsa e suas sacolas quando você sai, a fim de ver se você não está roubando, isto sem falar nas câmeras espalhadas por toda a loja. Eles pensam que todo mundo é igual a eles. Imagina se brasileiro ia aguentar uma coisa destas. Pois nós acabamos por nos acostumarmos assim, engolindo mais sapos. Afinal, é uma “ofensa” ser considerado ladrão assim, por qualquer um. Mas é preciso entender o lado deles também. Roubar em lojas é tão comum que tem nome, “shop lifting” (levantar da loja), considerado perdoável para a juventude pois afinal “são jovens”, os bichinhos engraçadinhos!

Infelizmente os australianos, tem este péssimo costume, não sei que raio de educação deles é esta. Outra coisa que adoram fazer nas lojas e colocar tudo no chão, você sai pisando em tudo pois nem funcionários tem suficiente para apanhar e colocar de volta no lugar, já que eles mesmo ignoram e não fazem. A gente costuma brincar dizendo que eles devem ter herdado este mal costume (de roubar) porque são descendentes dos convictos que eram mandados da Europa para prisões no meio do nada.

Nós mesmos já presenciamos vários roubos embaixo de nossos narizes. Já tentamos dizer para uma “atendente” e não valeu de nada, então, deixa eles roubarem. Naquela primeira vez, ficamos bestas de ver um carinha vestir uma, duas ou três destas cuecas samba-cancão estampadas e botar a bermuda dele por cima no meio do corredor apertado entre os cabides de roupas. E nós estávamos no início do corredor. Custou para assimilarmos o que estava acontecendo, e quando “realisamos” (“realise”, tomar conhecimento) ele já ia se escafedendo pela porta, calmamente, natural, pra ninguém desconfiar de nada. Falamos pra ela mas nem sabemos se ela entendeu, parecia uma beócia.

A gente já sabe até o perfil dos “shop lifters”, e isso é porque as lojas são sempre repletas de câmeras por todo lado, e o shopping inteiro também, incluindo estacionamento, ruas, o escambau, imagina se não fosse. Vai ver até que toaletes também tem câmeras escondidas… Na TV às vezes passa programas mostrando a capacidade de certa gente, até “distinta”, jogando jóias na bolsa e tal. Esta semana fizeram uma experiência pra saber até que ponto o australiano ainda é decente. Fizeram pessoas distintas “perderem” dinheiro na saída de caixas eletrônicos pra ver se as outras pessoas devolviam. Metade devolveu, metade saiu de fininho, mesmo vendo bem quem tinha perdido o dinheiro. É, um dia este percentual foi bem mais alto aqui neste país…

Mas estas câmeras nem sempre são eficientes. Verdade que de vez em quando a gente vê os vigilantes parando pessoas do lado de fora do shopping, porque é assim: eles ficam caladinhos, chamam os guardas, que param a pessoa bem longe, pra não envergonhar elas e não fazer alarde, sabe como é. Depois eles colocam os jovenzinhos dentro dos carros de polícia, discretamente… Dentre os tipos de roubos existem aqueles das crianças comerem e beberem de graça nos super-mercados, claro, alimentados pelos pais que deixam as embalagens vazias em qualquer lugar. Não pensem que só no Brasil existem estas coisas não. Mas os bebês não são colocados nos carros de polícia…

Então, brasileiro visitante ou morador de primeira viagem custa pra sacar esta “discreção” das attitudes deles. Ladrão é discreto, polícia e vigilantes são discretos, empregados são discretos ao chamarem a polícia, e pra você que está ainda deslumbrado com as novidades, não saca nada. Só depois de anos de convivência é que você vai aprendendo como é que eles lhe enfiam a faca devagarzinho e sorrindo.

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