quinta-feira, 2 de junho de 2011

A Ferrari Vermelha

Lá vou eu toda faceira passeando com o cachorro flu-flu branquinho e simpático pelas calçadas suburbanas de Sydney, retornando do dentista ao decidir fazer outro caminho de volta para casa só para andar mais um pouco, quando entrei nesta rua longa e do outro lado da calçada, em direção contrária, vinha um senhor que fazia uns gestos e ria como quem queria puxar papo daquela distância. Ri comigo mesma pois estava com a boca anestesiada e nem pensar em entabular uma conversa naquela hora.

Não, não sou loura
Faço que não vejo, rindo por dentro, bem recatada e continuo minha caminhada para casa. Não, eu não estava nem de saia comprida, nem de sobrinha rendada, nem de nariz empinado.

Pois não é que o senhor bem aparentado resolve voltar pelo mesmo caminho em direção ao seu carro estacionado, fazendo que esqueceu alguma coisa?

Ah meu Deus, tomo um susto danado e mal me contenho errando o passo. É que o tal carro era nada mais, nada menos que uma Ferrari vermelha reluzente, mas tão reluzente, que parecia que ele tinha lambido ela todinha! Com certeza era pra me impressionar, mas eu segui meu caminho e nem sequer olhei para trás.

Ferrari estacionada em Sydney
Como eu sei que era uma Ferrari, meu marido perguntou, sabendo que não entendo nada de carros? Ora, pelo emblema amarelo com um cavalo! E não é esse o símbolo da Ferrari? Ora, eu também já assisti a corridas de Fórmula 1. E este eu conferi de propósito.

Quer dizer, a coroa aqui agora está virando a cabeça dos playboys de Sydney que dirigem Ferraris! Mas demos muitas gargalhadas no telefone, eu e meu marido que disse assim: com esta concorrência, eu não aguento!

Ah, passei que passei, rindo pelo canto da boca. Suponho que ele deve achar que aquele carrão deve ganhar quem quer que ele deseje e bote o olho em cima. Bem, eu já andei em carros esportivos antes, sei como é, então como diz aquela música da Shania Twain, “it does not impress me” (não me impressiona).

Este foi apenas um dos pretendentes que todo dia encontro às carradas nas ruas do bairro onde moro e no centro de Sydney. Nunca me diverti tanto! Eles caem o queixo quando sabem que tenho filhos na universidade! Não falta quem puxe papo pra saber isso.

Eu não ficaria tão à vontade se apenas os homens puxassem papo, mas nesta cidade, todo mundo puxa papo. É bem diferente do velório de Canberra onde ninguém sequer olha pra você, quanto mais puxar papo. Aqui todo mundo conversa tanto que finalmente estou desenvolvendo e praticando meu Inglês, mal ponho o pé na rua, e até mesmo antes de botar o pé na rua, dentro do condomínio mesmo! Depois de ter passado 11 anos calada e embutida lá em Canberra, agora estou com a bola toda. É tudo quanto é gente pra conversar, com milhares de sotaques diferentes. Até Português aparece de vez em quando.

E ainda de quebra, me divirto pra caramba com as peripécias masculinas desta cidade que é muito viva, tão viva que até lembra minha cidade natal no nordeste do Brazil.

Mas imagine a capacidade deste coroa de hoje, voltar só pra me mostrar a coisa vermelha que ele tinha. Meu marido perguntou, “tem certeza de que o carro era dele”, e demos mais gargalhadas. Se a Ferrari vermelha era mesmo dele, só Deus sabe.

Dentista

E mais gargalhadas demos quando contei sobre o dentista onde fui continuar um tratamento antes de me deparar com a coisa vermelha. É que da última vez o dentista me deixou 5 horas paralisada de anestesia. Eu já estava entrando em pânico, pensando que ia morrer balbuciante de boca torta.

Hoje eu disse pra o dentista, mas que raios de anestesia foi aquela, seu? Ele disse, você reclamou tanto do dentista de Canberra que tirou seu dente a cru, sentindo as dores do parto para nunca mais, que eu reforcei a dose. Eu disse que fiquei tronxa a noite inteira, não podia falar nem comer, e ele ficou rindo junto com a recepcionista. Riram a valer, foi muito divertido.

Anestesiada
Aqui eu me divirto muito. Ele prometeu que desta vez ia durar só 3 ou 4 horas. Quando cheguei em casa vi que tinha feito sopa quente para tomar toda dormente. Fiquei imaginando a cena da sopa escorrendo e eu não sentindo nada, me queimando toda. Mas graças a Deus comecei a sentir as coisas de novo e logo a anestesia foi embora.

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